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Sobre ritmo e livros: O impacto do design na experiência de leitura

  • Foto do escritor: Andune Design
    Andune Design
  • 6 de mai.
  • 8 min de leitura

Conheça as várias formas que um designer editorial pode trabalhar o ritmo em projetos de livros



Você já parou para pensar que o ritmo também está presente no design de livros?


Pois então… O conceito do ritmo não é limitado à música, não. Apesar de ser mais conhecido nessa área, o ritmo é um conceito importante que tem uma aplicação muito mais abrangente


Mas, antes de entendermos melhor a relação entre ritmo e design de livros, primeiro precisamos entender o que é ritmo.


ritmo s.m.

sucessão de elementos fortes e fracos que se alternam com intervalos regulares na natureza e nas artes (na linguagem, na poesia, na música); cadência, compasso.


O ser humano tem um instinto natural de encontrar ritmos, sejam eles em forma de sons, objetos, narrativas ou até em elementos gráficos.


Em geral, o conceito de ritmo é bastante relacionado com o tempo. Mas como o tempo pode ser percebido nas mídias impressas? 


À primeira vista, isso pode parecer impossível. Entretanto, a resposta é simples: a forma mais fácil de criar uma noção de tempo em um projeto impresso é usando o espaço disponível. Isso quer dizer: usar o espaço da página, ou até de um conjunto de páginas de uma publicação, para expressar a passagem do tempo. 


Pode parecer complexo, mas a aplicação do conceito do ritmo é mais simples do que parece. Afinal, toda a publicação tem um ritmo visual, mesmo que seja, muitas vezes, monótono. Vamos mostrar aqui como podemos trabalhar com o ritmo de forma consciente.


A seguir, reunimos alguns dos elementos que podem ser utilizados para atribuir ritmo visual dentro de um projeto editorial. Para exemplificar cada um deles, utilizamos páginas de projetos criados pela equipe da Andune Design. 




8 elementos do ritmo visual em um projeto editorial



1. Cor

A cor é uma ferramenta que pode fazer muita diferença na criação de equilíbrio ou desequilíbrio em uma peça gráfica.


A gente trouxe antes uma definição de ritmo que diz que a cadência vem da “alternância de elementos fortes e fracos”. 


Isso quer dizer que, para criar ritmo visual a partir das cores, é importante a utilização de contraste. Em termos de cores, isso pode ser feito através da variação de matiz, saturação e luminosidade.


Em Um conto de fadas, por exemplo, as cores foram utilizadas como forma de representar o ritmo da narrativa


Exemplos de páginas do livro Um conto de fadas, mostrando seus diversos usos de cores
Exemplos de algumas páginas do livro Um conto de fadas, demonstrando o uso de cores como recurso para atribuir um ritmo visual à narrativa.

A maior parte das páginas do livro é em tons mais escuros, puxando para o vermelho e para o preto. O contraste acontece em algumas páginas pontuais em tons claros, como o verde, o amarelo e o laranja, presentes em momentos de destaque da narrativa


Na história, o personagem principal vive um momento de vida com muitos sentimentos negativos. Por isso, as páginas escuras e avermelhadas são uma forma de representar visualmente esses sentimentos. Da mesma forma, as páginas mais claras e em tons mais suaves ajudam a criar um contraste nos momentos de quebra, de respiro, de alívio para o personagem.


Vale lembrar que esse é apenas um exemplo. Existe uma variedade incrível de formas de trabalhar o ritmo através de cores dentro de uma obra impressa. 




2. Tipografia

Assim como no caso da cor, a tipografia tem um papel muito relevante na percepção do conteúdo por parte do leitor. 


A tipografia pode, basicamente, ser trabalhada de duas formas: buscando a invisibilidade ou buscando a atenção


Uma tipografia invisível busca a leiturabilidade, a facilidade da leitura, dando foco ao conteúdo, e não ao tipo das letras. Ao contrário, quando a tipografia é o foco da atenção, a ideia é comunicar mais visualmente a informação, mesmo que a legibilidade fique comprometida.


As duas formas de trabalhar a tipografia são maneiras de trabalhar com o ritmo – uma de forma sutil, a outra de forma mais óbvia. 


Existe, ainda, a possibilidade de criar uma obra que faça uso dessas duas técnicas tipográficas. Podemos, por exemplo, utilizar um padrão para o texto em geral e, em pontos-chave da narrativa, quebrar esse padrão. Criamos, assim, um foco de atenção que altera o ritmo preestabelecido



Exemplos de 3 projetos mostrando diferentes formas de usar tipografia em um projeto de livro
Exemplos de diferentes formas de usar a tipografia: de modo invisível, para facilitar a leitura (Do atelier ao cubo branco - à esquerda), e de modo a salientar trechos que merecem atenção especial, quebrando o ritmo da leitura (Um conto de fadas - no centro e O menino de metal - à direita).


3. Espaçamento

Uma ferramenta que também pode ser utilizada para atribuir ritmo a um texto é o espaço da página, tanto horizontal quanto vertical.


Quando se fala em espaço horizontal, isso inclui o comprimento da linha, o número de caracteres por linha, o espaçamento entre as palavras e o espaçamento entre as letras.


Normalmente, é considerado que linhas muito longas são cansativas de ler, porque os olhos têm que percorrer uma distância longa para poder passar para a linha seguinte. Da mesma forma, linhas curtas em textos longos também podem ser cansativas, pois fragmentam demais as frases. 


O espaçamento vertical, por sua vez, pode ser trabalhado principalmente com os espaços vazios e o espaçamento entre linhas. Da mesma forma que acontece com o espaço horizontal, o vertical pode também ser utilizado como um recurso visual para a expressão de ritmo de forma criativa.



Exemplos de 3 maneiras que o designer editorial pode trabalhar espaçamento nas páginas de um livro
Exemplos de modos diferentes de trabalhar o espaço em uma página: em Um conto de fadas, a variação do espaço entre as linhas passa a ideia de sufocamento (à esquerda); no livro Um amigo contra os medos, linhas curtas fragmentam as frases para facilitar a leitura por crianças (no centro); em O menino de metal, um grande espaço vazio na página cria uma pausa significativa na leitura (à direita).


4. Imagem

A frequência, o tamanho e o estilo das imagens ao longo das páginas também influenciam no ritmo de um projeto editorial.


No caso da frequência, a ideia é que a quantidade de imagens ao longo das páginas pode ser utilizada para manipular o ritmo de leitura. Por exemplo, em textos longos e contínuos, imagens oferecem uma pausa na leitura. Já em histórias em quadrinhos, as imagens são muito mais presentes e o texto é um coadjuvante à ação. Nesse caso, a quantidade de quadros em uma página acaba influenciando o ritmo de leitura.


Em relação ao tamanho das imagens, considera-se que imagens maiores normalmente têm um impacto maior que imagens pequenas. Em geral, a presença de uma imagem maior em uma página faz com que o leitor pare para prestar atenção aos detalhes. Uma imagem maior passa a ideia de ser mais significativa e o leitor tende a observá-la como tal.


O estilo das imagens também é um fator relevante para pensar o ritmo. A quantidade de detalhes e elementos em uma imagem, por exemplo, pode influenciar diretamente na forma como o leitor interage com a obra. Uma imagem também é uma informação a ser lida, e uma foto ou ilustração com muitos detalhes faz com que o leitor passe mais tempo analisando a página. Inserir imagens com detalhes significativos, portanto, é uma forma de propositalmente reduzir o ritmo de leitura.



3 exemplos de formas de utilizar a imagem em projetos editoriais
Exemplos das obras Do atelier ao cubo branco, Lost and found e Um amigo contra os medos, mostrando como a utilização da imagem pode influenciar o ritmo de leitura em diversos tipos de publicações.


5. Composição

A composição visual de um livro pode ser comparada à composição de uma imagem. Nesses dois tipos de composição, princípios como do equilíbrio e desequilíbrio, simetria e assimetria, e a noção de pontos focais e espaços vazios são fundamentais.


A complexidade de um livro, entretanto, é maior, pois devemos considerar que isso deve ser feito ao longo de diversas páginas. Isso quer dizer que é importante pensar tanto na composição de uma página, como também do livro como um todo.


Uma forma de pensar a composição no livro inteiro é utilizar uma composição similar em diversas páginas seguidas. Isso pode ser uma forma de gerar conforto na experiência da leitura. Dependendo de como for feita, essa repetição pode ser um recurso visual que transmite a ideia de continuidade.


Do mesmo modo, colocar muitas páginas seguidas com composições completamente diferentes umas das outras é algo que faz com que o leitor precise prestar atenção em cada página, já que não existe um padrão de leitura a ser seguido.


O legal é que tudo isso são possibilidades que podem ser utilizadas das mais diversas formas – separadamente ou em conjunto – para criar o ritmo visual de uma publicação.



Exemplos da composição no livro Um amigo contra os medos
Exemplos do livro Um amigo contra os medos, onde a composição das páginas duplas varia bastante para transmitir um ritmo coerente com cada parte da narrativa. 


6. Hierarquia

Em geral, cada página de um livro apresenta um conjunto de informações, com variados graus de importância. Estamos falando de conteúdo textual, imagens, número da página, título do livro, título do capítulo… São muitos tipos de informações que podem estar inseridos em uma única página.


Para ajudar a guiar o leitor e fazer com que a experiência de leitura seja mais agradável, o designer utiliza um recurso muito importante: a hierarquia das informações.


Existem várias maneiras de criar hierarquia em uma publicação, que dependem muito do tipo de informações contidas na obra.


A repetição, por exemplo, é um recurso bastante utilizado no design gráfico. E a quebra do padrão de repetição pode ser uma forma de criar hierarquia.


Mas o que isso tem a ver com o ritmo em um projeto editorial?


Bem, o que acontece é que esses elementos repetidos criam um ritmo visual monótono, mas que pode ser manipulado com variações intencionais. É a partir dessas quebras nos padrões que salientamos as partes mais importantes, guiando a leitura.


Então, se considerarmos o projeto gráfico de um livro, por exemplo, podemos ver o ritmo criado por padrões que aceitam variações – criando fluidez e movimento nas páginas.



Exemplos da hierarquia nas páginas do livro Receitas Zaffari
Exemplo de hierarquia de informações aplicada nas páginas do Receitas Zaffari, um livro de receitas comemorativo.


7. Formato

Para a escolha do formato, é importante lembrar que o livro é percebido de acordo com as suas páginas duplas


Assim, deve-se pensar que um livro em formato retrato vai se aproximar do formato de um quadrado quando aberto. O formato paisagem, por sua vez, fica bastante alongado, o que pode ser interessante para alguns projetos. 


Há ainda a possibilidade de se trabalhar em forma de bloco, com a lombada na parte superior do livro. Nesse caso, as páginas duplas ficarão uma acima da outra.


De qualquer forma, devemos considerar que a escolha do formato do livro vai influenciar na experiência do leitor, podendo facilitar ou atrapalhar a leitura.



Alguns exemplos de formatos possíveis para uma publicação impressa
Exemplos das publicações O menino de metal (à esquerda), Relatório Anual Eture Design (no centro) e O Sacrifício (à direita), respectivamente em formato retrato, paisagem e em bloco .


8. Movimento

O movimento em uma página impressa é uma sensação subjetiva e ele pode ser usado ou não como recurso, dependendo do tipo de obra que está sendo desenvolvida. 


Em geral, esse conceito é muito mais utilizado por narrativas gráficas, como livros ilustrados ou histórias em quadrinhos. Isso, é claro, não impede que esse recurso seja utilizado em livros didáticos ou até mesmo em livros sem imagens.


O conceito do movimento se baseia na variação do tempo e do espaço. Em uma página, temos o espaço claramente representado. Já para representar o movimento dentro de uma página, ou ao longo de várias páginas, o segredo está na maneira de apresentar os elementos dentro do espaço disponível. Para isso, uma série de artifícios visuais pode ser utilizada, como composições em diagonal, linhas de movimento, imagens em uma sequência, etc.


O legal de usar o movimento para criar ritmo em uma publicação impressa é que se pode fazer uma brincadeira entre movimento e inércia, criando o ritmo através do contraste visual a partir desses dois conceitos.


Alguns exemplos de movimento em publicações impressas
Alguns exemplos de como passar a ideia de movimento através de ilustrações (acima) e de recursos tipográficos (abaixo). As obras nos exemplos são Um amigo contra os medos, O Sacrifício e O menino de metal.

Dá pra ver que o ritmo em um projeto visual pode ser trabalhado a partir de várias frentes. O mais legal é que todos os elementos são interligados, interagindo entre si como em uma dança. Afinal, dificilmente apenas um desses elementos vai ser utilizado para a criação de ritmo visual em uma publicação impressa.


Aqui na Andune, gostamos de conhecer quais são as possibilidades que existem, para podermos criar projetos criativos utilizando todas as ferramentas que temos à nossa disposição.


O estudo de ritmo é uma das inúmeras formas de fazer isso e é uma área que acreditamos que pode ajudar a agregar ainda mais valor naquele projeto diferenciado e especial



E você, já tinha ouvido falar no ritmo em projetos editoriais


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